Oceano Profundo ( onde oceana-se nós mesmos )
“Num oceano de mim mesmo pude mergulhar até o fundo, seguindo-me, olhando-me...
E na mais profunda e densa imersão eu vi, mergulhados e assustados, meus olhos...
Olhando-me.
Num ímpeto repentino desesperado, eu inundado até os ossos, segui-me e vigiei-me.
Percebendo outros eus, mergulhados e assustados, outros olhos que estavam fitando-me... Fitando-me...
No fundo, desse mais fundo, profundo, mergulhados num abismo, meus olhos... Olhavam-me... Molhavam-me... Mergulhavam-me... Vendo-me, fitando-me fitando-os assustados... Em mim.
Oh. Quantos olhos eu podia ver, quantas vistas eu podia ser, em quantas brisas podia me ir sem que eu deixasse de estar mergulhado, bem no fundo, daquele oceano abissal, colossal, infernal... Que me olhava.
Num oceano de mim mesmo eu pude me ver até o fundo, chorando-me, rindo-me, crescendo-me e perdendo-me para outros olhos que me choravam, riam-me, cresciam-me e perdiam-me, novamente, para mim mesmo.
Oh. Quantos eus eu podia ser, quantas missas podia ter, em quantas brisas podia ficar-me sem deixar-me permanecer... Mergulhado bem no fundo daquele oceano, admirável, encantado, celestial... Que me vigiava.
Num encarar de mim mesmo, vi outros olhos, outras faces, outros rostos, outros modos, que há muitas eras se dividiram em outros e em diferentes olhares que choravam, riam, cresciam e também se perdiam, novamente, para eles mesmos.
Percebiam outros eles, mergulhados e assustados, outros olhos que estavam fitando-se... Findando-se magoados de terem sido tão desleixados em não se terem percebidos até então, mergulhados neles mesmos, ao meu lado. Onde profundamente me fitavam assustados, lendo eles mesmos enquanto liam sobre mim. Ouviam-se enquanto me ouviam falando sobre eu mesmo, eles percebiam-se olhando outro, enquanto se olhavam ao fitarem o que pensavam sobre mim... E descobriam-se parte de um oceano profundo, onde olhos se olhavam, onde eu me via neles e eles se viam em mim.
Oh... Quantas lágrimas eu chorei por aqueles olhos, esses olhos, meus olhos... Só. Quantas lágrimas... Quantas lágrimas... Tantas que entendi do que eram feitos os olhos, o oceano, que desesperado e perturbado, naquele momento, me perdi...”
Suzo Bianco
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