CARTA 03
Carta à Rainha Fada
Belíssima fada turva de volúpia íntima, com sua tão bela borboleta absurda, me ilustra lustrosa Lua... Ah! Planetas e cometas voam solitários no universo, deslizam-se para a boa ação em divinos versos. Já as pétalas nuas engolem-se. Cruzam-se íntimas. Vagas e cruas dançam-se, choram, satisfeitíssimas! Oh! Belíssima flor meiga, de seiva amarga de sabor doce... Afaga-me a perfeita saudade, de bem, já hoje! Soluça-me desejos e sonhos à noite que, sobre meu orgulho, mergulha oriunda, vinda de sua desejada floresta desabitada... Ora suas asas tremem após abraço ávido de lhe tocar as folhas sensíveis, ora se comprimem em volta de mim, sob a mata morna dos encantos que me insistem. Luto - em não perdê-la os olhos sonhadores - em meus sonhos. Então me deixo morrer de entorpecimento, alucinado e rendido, aos seus mais ternos lábios sagrados, eternamente apaixonados, por um duende falido.
CARTA 04
Carta à fada além do vale da Torre.
Dia de São Nunca, as vésperas da Festa Feliz.
Os longos uivos dos lobos me assustam, embora cantem para a Lua, seus olhos brilham no escuro. Eles enxergam as almas mais comuns, caçando o inimigo. Não me espantaria, entre tanto, se eles honrassem a Mãe, pois julgam mal seu opositor. Caçam mais sangue que carne, rosnam mais que latem. Não são cães... São lobos selvagens e famintos pela noite, revoltados com o mundo que criaram para eles. São forçados a serem o que são. Tenho medo sim. Sou apenas um duende velho, em crise. Sentiria muita fé se o que sinto, não fosse consequência dos Lordes do Poder.
Não se opõem ao meu livre pensar, mas me negam a minha razão com suas ações. Não só a mim... A todos. Porém, dizem alguns por aqui, no vale; “De que adianta se rebelar e não ter as mesmas armas? É um suicídio tolo e infantil... Acorde para o Muro, desta enorme construção. A terra eterna da pedra da escuridão. Não vê as fumaças pestilentas no ar? Não enxerga a água contaminada que bebemos? Se acuda. Rebeldia só te levará a amarga versão dos fatos. E isso, meu caro duende amigo, não lhe ajudará em nada, só o manterá, na temida e vasta, solidão!”
O que poderia dizer diante desta conclusão?
Estou preso, mas preciso do que eles querem; o papel de crédito da Torre.
Temos que alcançar o inalcançável céu. Temos que por esta Torre pra cima...
Não importa os vigias, não importa os traidores...
Mas não como estes lobos que me assustam... Não com selvageria...
Eu vi na bola, que se o mundo está acabando... Dizer isso, para todos, é querer o pior.
O arco-íris há tempo não aparece...
E os guardas querem saber da Planta. E outros acreditam na matança...
Irmãos inimigos de irmãos. Pai contra os filhos. Filhos contra os pais... Todos inocentes passivos diante do massacre comandado pelos Lordes Sombrios.
Alquimistas da ingratidão.
Gritam pela Boca da Mentira:
“Queimem eles, soprem depois. Esfolem-nos, por não cumprirem as ordens...!”
E os escravos batem palma...
Desculpe-me bela Rainha. Escondida és bela dita.
Foi-se minha razão com palavras duras já escritas.
Mas que me é árduo sensação de impotência...
Vou mesmo ter que florescer no barro...
Mande-me preces... Flores só no fim...
Até lá tenho muito que fazer e pensar.
Até lá vou tentar lhe dizer a respeito da multidão...
Mas não hoje, temos uma eternidade pela frente.
Com carinhos:
Rumpelstiltskin.
CARTA 05
Dia de Ópera Florestal, ano da Tartaruga Eterna, onde sobre seu casco, vive o mundo.
Ao meu carinhoso e melancólico Rumpel:
Imaginava sensações suas trazidas pelos pássaros. Enviei-lhe então sobras de luz, daqui, para iluminá-lo nas sombras de sua prisão. Espero que tenha sido mais uma impressão exagerada, a minha, pois me custa saber de suas dores. Toca-me o coração, acostumado de ternura, banhado pela névoa que me cai aqui na clareira da emancipação.
Sei que há alguém aí que poderia lhe libertar, mas sei também de sua postura; fria e protecionista. Seu medo dos humanos lhe causa dor, lhe suspende na poeira, mas lhe fere a pele verde delicada... Escute mais os bichos, estes nunca lhe abandonarão. Tenha fé em nossa Mãe. Gaia é generosa com seus filhos que, mesmo sob tortura, não Lhe negam a importância e sabedoria.
Muitos de nós já fomos caçados e queimados no passado, desde quando os elfos partiram para bem longe... Afortunados foram eles.
Porém sua missão persiste. Tenha força e não se abandone. Um dia toda a loucura que esteja presenciando acabará. Verá! Voltará aos meus braços que tanto querem lhe afagar...
Confesso, mas antes peço, que não se alarme, chorei-lhe cristais sob o salgueiro azul.
Ainda lhe penso e lhe concebo.
Ainda e eternamente serei sua fêmea...
Suas cartas, a mim enviadas, pelos insetos coloridos que te visitam me chegaram a tempo. Continue a me relatar, se isso lhe anestesia as dores.
O rouxinol me contou também que você, meu amado, anda mais triste do que nunca, que suas orelhas, embora não mais pontudas, estão a escutar demais. Os fantasmas da destruição estão a lhe importunar... Que os humanos seguidores dos Lordes Negros estão a lhe observar... Que suas mechas naturais estão crescendo, juntamente com sua mágoa por aqueles que as condenam...
Não se retenha a isso. Lembre-se... “Somos crias do cosmos, somos filhos de Gaia, e sofreremos enquanto a mentira dos homens perdurarem”. Não lute contra, apenas observe e nos relate suas experiências. Tenha calma e não retorne até ter certeza de que está livre para isso. Ainda existem bons humanos, nunca se esqueça disso, é por eles que fazemos o que fazemos...
Continue seu diário disfarçado. Continue... Aproveite da descrença dos inimigos e construa nossa arma contra a Cabeça de Ferro.
O fogo terá seu fim um dia, e lá, só restará a chama da verdade...
Não se precipite.
Eu e os seus, o amamos.
Com carinhos saudosos.
F. Elmadrim
“Sua Fada além do Vale.”